O que você pode se tornar?
A psique não floresce sob o jugo da negação. Aquilo que tentamos reprimir retorna pelas sombras, vestindo os trajes do sintoma, do medo ou da repetição. Negar-se é permanecer cativo de uma autoimagem rígida — um espelho fixo que impede o movimento da alma. A transformação genuína não nasce do combate ao que somos, mas do diálogo com aquilo que, em nós, ainda é semente.
No processo de individuação, o ser não se desfaz de si mesmo; ele se amplia. O que hoje aparece como limite pode conter, em germe, a forma futura. Afirmar o que se pode tornar é oferecer energia psíquica ao que pede nascimento. Assim, a mudança não é destruição do velho, mas sua transfiguração: a lagarta não precisa odiar-se para tornar-se borboleta — basta obedecer ao impulso interno que a conduz à metamorfose.
Curiosamente, essa visão simbólica encontra eco na psicologia comportamental. Aquilo que repetimos, reforçamos; aquilo que evitamos, paradoxalmente, mantemos vivo pelo esforço constante de supressão. Quando o foco está em “não ser” — não falhar, não temer, não ser fraco — a mente permanece organizada em torno do próprio padrão que tenta negar. O comportamento continua orbitando o problema. Já quando a atenção se desloca para repertórios desejados — agir com coragem, praticar presença, cultivar competência — novos circuitos se fortalecem. O reforço passa a alimentar possibilidades, não defesas.
Há aqui uma ponte profunda entre sombra e hábito. O conteúdo rejeitado da psique muitas vezes se manifesta em comportamentos automáticos, enquanto o self potencial se esboça em pequenas ações ainda frágeis. Cada gesto alinhado ao que se quer tornar funciona como um símbolo vivido: não apenas imaginação, mas encarnação progressiva. O inconsciente lê atos com mais força que intenções.
Portanto, mudar não é travar guerra contra a própria natureza, mas reorganizar a direção da energia — psíquica e comportamental. Em vez de lutar contra a sombra, caminha-se em direção à forma latente. Pois é ao afirmar o possível em atos repetidos que o ser se reconfigura, e aquilo que antes era apenas promessa passa a ser destino vivido.
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