O Ego sempre esteve no centro das discussões da área espiritual. A maior parte dos sistemas mágicos e religiões confere ao ego o status de um mal interno que deve ser combatido. No entanto esse é só a conclusão final sobre um estudo muito mais profundo e é necessário compreender o que está por trás desses axiomas sobre a questão do ego antes de conferi-lo o estigma de vilão.

Vamos voltar no tempo, alguns milhões de anos quando o ser humano neandertal era inconsciente, assim como qualquer outro animal da terra. O mecanismo natural de uma espécie é o mecanismo de manada, através do mecanismo de manada uma espécie sempre estará unida no mesmo propósito natural que é crescer e se multiplicar de forma saudável. Não é diferente para os seres humanos, principalmente o neandertal. Se imagine naquela época, você faz parte do rebanho que é a espécie humana, e naturalmente vai lutar pela sobrevivência e propagação, sem consciência individual, mas sim como espécie.

Nesse contexto, dos nossos ancestrais neandertais, em algum momento houve um salto evolutivo há milhões de anos que foi o surgimento do ego. Essa foi mais uma das tantas mutações naturais que aconteceram com os seres humanos ao longo das eras, e essa foi uma mutação que sobreviveu e propagou, dando origem a nossa espécie, inclusive. Embora o ego sempre apareça no papel de vilão, foi exatamente ele que nos tornou o que somos.

A base do mecanismo de ego é simplesmente a auto consciência. Essa consciência intima de que somos indivíduos, independentes de nossa manada. Essa é a base do ego: a noção de individualidade.

Até essa parte é ok, é um mecanismo natural e temos mesmo que lidar com a nossa própria individualidade. E nessa noção de individualidade o ego também é o nosso maior guardião, pois ele que é o combustível que da energia a nossa necessidade de sobrevivência e de propagação. O ego, em sua base, é o que nos protege, como individuo.

O problema é quando essa base primária se distorce, e a noção de individualidade, se desenvolve em individualismo. Mas antes de destrinchar esse exemplo, um adendo: no nosso sistema  de percepção nos temos a tendência, também natural, de julgar e moralizar qualquer que seja a questão, no entanto é necessário se despir de moralidade ou preconceito para compreender. O caminho da compreensão ele deve estar livre de preconceitos, julgamento ou moralismo. Ele é lógica pura.

Observando essa “evolução” de individualidade para individualismo a primeira questão que aparece é: Qual é o problema do individualismo?

Afinal o individualismo parte de um mecanismo natural de sobrevivência, e sem moralizar a questão, poderíamos dizer tranquilamente que buscar qualquer que seja os recursos externos para garantir a nossa sobrevivência e a sobrevivência de nossa família não há nada de errado. Ponto.

No entanto há uma linha tênue entre o mecanismo de manada e o mecanismo do ego, isso que deve ser levado em consideração. O mecanismo de manada nos protege como espécie, protege toda a raça humana, enquanto o ego nos protege como indivíduos e não se importa muito com os outros, afinal somos o centro de nossa própria existência.

Portanto o problema da individualidade se tornar individualismo, é que é quebrada a linha que nos mantém como espécie. O excesso de individualismo espalhado entre os seres humanos criam um tipo de doença social que pode dar fim a própria espécie ou pelo menos manter o corpo social doente. Afinal uns estarão consumindo mais do que todo o resto, gerando uma escassez generalizada, e desestabilização social.

Imagine como se fosse um câncer, entre os vários tipos, um dos modelos de câncer é quando uma célula começa a consumir mais do que necessário dentro daquele ecossistema de células. Então quando uma célula está consumindo mais que as outras a chance de propagação dela (dar origem a novas células a partir de si) é maior.

Em pequena escala isso não parece problemático, no entanto quanto mais essas células gulosas se propagam, mais espaço elas ocupam, captando o espaço das células saudáveis, e em último grau esse conjunto de células gulosas vai acabar causando morte do hospedeiro e, portanto, de si mesma.

Imagine o corpo como nosso corpo social, e nos somos essas células. O individualismo acaba causando essa vontade ou necessidade de consumir mais do que precisamos para sobreviver, consumindo mais, assim estamos funcionando como uma célula cancerígena, afinal estamos tomando recursos ou espaço de outras pessoas.

Isso em menor ou maior escala estará desestabilizado o tecido social e também o mecanismo de manada, que nos protege como espécie. Nesse contexto que nascem as outras desordem egóicas. O egocentrismo surge justamente para proteger com uma estrutura pseudo racional a ideia de que podemos sim consumir além do que nos é necessário e foda-se os outros, o que importa é a nossa sobrevivência e propagação.

Essa, por si só, já é uma ideia perigosa para o corpo social, como perceberam. No entanto essa é apenas uma das fases, dentro do caminho da parte maligna do mecanismo de ego, e sem que a gente faça um esforço consciente para impedir, a fruta podre que nasce dessa evolução do nosso mecanismo de ego descontrolado é a ganância. Onde não só queremos consumir mais do que todo mundo, mas que não nos importa as outras pessoas, seja lá quem tenhamos que manipular ou destruir para produzir esse excesso que queremos usufruir.

E é por isso que o ego é demonizado na maior parte dos sistemas, pois a “evolução” final dele pode dar fim à própria espécie, como uma doença mesmo, que pode matar o hospedeiro ou deixá-lo desabilitado enquanto estiver agindo sobre ele. Portanto, para manter o equilíbrio entre nossa individualidade e o equilíbrio como especie, o ideal impedir que o mecanismo de individuação se torne individualismo.

Para que nós, como espécie, fiquemos saudáveis, esses mecanismos gerados pelo individualismo devem ser combatidos. E se você quiser colocar uma questão mística ou sobrenatural na questão, imagine o mecanismo de manada como Deus. Afinal a ideia básica da maioria dos deuses é de que devemos ser saudáveis como espécie para continuar crescendo e se multiplicando e evoluindo nesse processo.

A questão então não é o ego ser o grande vilão, mas sim as suas “evoluções” que são o individualismo, o egocentrismo, o egoismo, e a ganância. O ego não precisa ser nosso vilão, desde que o mantenhamos sob as rédias da racionalidade e lógica.

Inclusive o mecanismo de ego pode servir de combustível para nossa evolução individual dentro do caminho da espiritualidade. O combustível que será queimado até que não reste mais nada dele. É essa que é considerada a dissolução do ego, quando ele não é necessário mais para nossa sobrevivência e propagação, afinal podemos manter nossa sobrevivência de forma racional. E também não será mais combustível para nossa busca por evolução, pois afinal, não precisaremos do mecanismo, apenas somos em si mesmo racionalmente.

Depois da dissolução o ego transmuta e deixa de ser combustível para entrar na dança do yin yang, girando infinitamente em consonância com o mecanismo de manada. É o equilíbrio buscado entre nós e a nossa espécie.

Mas para além do domínio do mecanismo de ego, perceba que praticamente todos os sistemas mágicos e religiões tem em sua base a ideia de amor ao próximo, afinal essa a nossa ideia básica que nos faz sobreviver como espécie. É por isso que é encorajado as ideias contra a ganância e a favor da caridade, de ajudar os outros.

No entanto, o mecanismo de ego é muito forte a ponto de fazer com que o mecanismo de manada trabalhe em prol de sua ganância. É nesse contexto que as religiões acabaram todas por se corromper, ao custo do mecanismo de ego adoecidos de alguns.

E isso se espalha entre as pessoas, principalmente com o argumento egoico de que se tem pessoas que estão se dando bem com isso, por que não eu?

Essa é a forma como o mecanismo de manada foi transformado em arma pelo ego, pois você não está se baseando em seu próprio caminho, mas sim comparando a si com os outros, se baseando não no que eles tem a ensinar de bom, mas sim no que tem de pior. E isso é contagioso mesmo, afinal o ego é terra fértil demais, qualquer coisa que plantar ali vai crescer, e quando você planta inveja ela vai florir.

Portanto, é por causa de tudo isso, que o ego é tão demonizado, e também por isso que devemos tomar cuidado com o nosso ego. Não é uma questão de destruí-lo, mas sim de deixar de ser escravo desse mecanismo.

Esse texto foi escrito enquanto eu estava na força da ayahuasca.