Anjos Fósseis – Alan Moore

Consideremos o mundo da magia. Uma dispersão de ordens ocultas que, quando não estão tentando refutar a ascendência uma da outra, estão criogenicamente suspensas em suas rotinas ritualísticas, seu jogo de ditames de Aiwaz, ou algo perdido em um spam canalizado de uma expansão de Dungeons & Dragons, mapeando um novo universo infalsificável e então completamente sem valor até que demonstrassem que tem tanto a ver quanto uma unha pintada de esmalte preto na garra de um dragão antigo. Transmissões autoconscientes de entidades afligidas por síndrome de Tourette, de horrores glossolálicos de Hammer [companhia cinematográfica britânica]. Alguidares oraculares [scrying bowls] de alguma forma recebendo trailers do canal Sci-Fi. Muito longe dos caciques ocultos, e por esta razão, muito longe dos índios ocultos.

Além disso, passando pelos portões rangentes das ilustres sociedades, dilapidados tolos de 50 anos que deram início aos planos para um palácio celestial, mas inevitavelmente terminaram com o Bates Motel, enquanto lá fora se estende a multidão. Os embusteiros da psique. O rugido incoerente de nossa hermética torcida em casa, os anouraques Akashicos, os metidos a Wiccans e o Templo UV dos quarenta psíquicos-qualquer-coisa fazendo fila para a última franquia do reino das fadas, reino dos irrecuperáveis hobbituados. Vila Potter.

Em resumo, alguém tem alguma pista do que estamos fazendo, e precisamente por que estamos fazendo?
Como exatamente isso confirma o Aeon de Horus, Aeon de qualquer coisa se não de mais consumismo, de política de gangsters, do materialismo levado ao limite da mente? Isso que parece ser um lugar comum quase universal de aceitação de ideais conservadores é na verdade sinal de uma desgovernada Thelema? O Cthulhu está voltando em algum momento próximo ou são as maldições bárbaras da escuridão lá fora onde os iluministas tentam achar seus traseiros com uma lanterna? O ocultismo ocidental contemporâneo conseguiu realizar algo mensurável fora da sessão mediúnica [séance parlour]? A magia tem algum outro uso definido para a espécie humana além de oferecer a oportunidade de se fantasiar? Putas Tântricas e vigários da noite temática de Thelema. Pentagramas em seus olhos. “Esta noite, Matthew, eu serei o Logos do Aeon”. A magia demonstrou algum propósito, justificando sua existência de modo como a arte ou a ciência ou a agricultura justificaram as suas? Em resumo, alguém tem alguma pista do que estamos fazendo, e precisamente por que estamos fazendo?

Certamente, a Magia nem sempre foi divorciada de maneira tão aparente de toda função humana imediata. Sua origem paleolítica no xamanismo com certeza representou, naquele momento, a única forma de mediação com um universo vasto e hostil sobre o qual até então exercíamos muito pouco entendimento ou controle. Em tais circunstancias é fácil conceber magia como representando inicialmente uma realidade de parada única numa loja de conveniência pela estrada. Uma visão de mundo em que todas as outras vertentes da nossa existência – caça, procriação, lidar com os elementos ou pinturas nas paredes das cavernas – foram agrupadas. A ciência de tudo, sua relevância para as preocupações comuns dos mamíferos, tanto óbvias quanto inegáveis.

Essa função de uma “filosofia natural” com tudo incluso, obtida ao longo da ascensão da civilização clássica, ainda pode ser vista, embora de maneira mais latente, até o século XVI, quando as ciências mundana e oculta não eram tão dissociáveis como são hoje. Seria surpreendente, por exemplo, se John Dee não cedesse seu conhecimento de astrologia matizando sua inestimável contribuição para a arte da navegação ou vice-versa. Não até que a Idade da Razão gradualmente pervertesse nossa crença e contato com os deuses que proveram nossos predecessores e nosso inexperiente senso de racionalidade identificasse o sobrenatural como um mero órgão vestigial no corpo humano, obsoleto e possivelmente doente, que deve ser rapidamente extraído.

A ciência, crescida à parte da magia, dotada da magia, cria impulsiva, sua forma mais prática e portanto materialmente proveitosa de aplicação, muito cedo decidiu que o ritual e a alfaia simbólica de sua cultura parental alquímica era redundante, um estorvo e um constrangimento. Inflado em seu novo jaleco branco, com esferográficas ostentadas como medalhas em seu peito, a ciência envergonhou-se de seus companheiros (história, geografia, por exemplo) flagrados fazendo compras com a mãe, com todo o seu resmungo e cantoria. Seu terceiro mamilo. Melhor esconder sua loucura em algum lugar seguro, alguma Fraggle Rock [gíria inglesa para uma ala psiquiátrica em que os encarcerados tomam altas dosagens de medicamentos fortes] para velhos e perturbados paradigmas.

A magia, por outro lado, perdeu todo o seu propósito e utilidade demonstrável, como muitos pais quando os filhos crescem e vão embora
A cisão que isso causou na família de ideias humana parece irrevogável, com duas partes do que antes era um organismo separado pelo reducionismo, uma “ciência de tudo” inclusiva se tornou duas visões separadas, cada uma aparentemente em acirrada e viciosa oposição em relação à outra. A ciência, no processo deste amargo divórcio, pode-se dizer que perdeu contato com seu componente ético, com base moral necessária para prevenir a reprodução de monstros. A magia, por outro lado, perdeu todo o seu propósito e utilidade demonstrável, como muitos pais quando os filhos crescem e vão embora. Como preencher o vazio? A resposta é, seja falando da magia ou do mundano, lastimando por pais e mães com ninhos vazios, com toda probabilidade, “com ritual e nostalgia”.

O ressurgimento da magia do século XIX, com sua natureza retrospectiva e essencialmente romântica, parecia estar abençoado com esses dois fatores em abundância. Embora seja difícil não notar as contribuições feitas para a magia enquanto campo de conhecimento, tais como, Eliphas Levi ou os vários magos da Golden Dawn, é tão difícil quanto deixar de argumentar que essas contribuições foram esmagadoramente sucintas, na medida em que aspiravam criar uma síntese da tradição já existente, em formalizar as mais variadas sabedorias dos antigos.

Não é desmerecer essa considerável realização se observarmos que esta magia, durante décadas, carecia de propósito imediato, o que levou a pressa pioneira que caracterizou, por exemplo, o trabalho de Dee e Kelly. No desenvolvimento de seu sistema Enoquiano, a magia tardia da renascença poderia ser tipificada como experimental e de urgência criativa, voltada para o futuro. Em comparação, os ocultistas do século XIX parecem ter quase deslocado a magia para um passado reverenciado, tornando-a uma trilha de exibição de museu, um acervo, com eles mesmos como curadores.

Tinham todas as vestes e adereços, que cheiravam a reencenações históricas em grupo, uma sociedade serafínica do nó selado, com uma marcha ligeiramente menos boba. O preocupante consenso de valores de direita e o número de baixas às sacudidas e tropeços, por outro lado, provavelmente eram idênticos. Os ritos das elevadas ordens magísticas e as bebedeiras homicidas das bandas tributo de Cromwell são também similares na medida em que ambas comovem se justapostas ao cruel e implacável mecanismo da realidade industrial. Belas varinhas pintadas, obsessivas e genuínas ponteiras, levantadas contra o lúgubre progresso das chaminés. O quanto disso não pode ser mais acuradamente descrito como fantasias compensatórias da era da máquina? RPGs que só servem para evidenciar o fato brutal que essas atividades não têm mais relevância humana na contemporaneidade. Uma melancólica recriação dos momentos eróticos há muito passados de um impotente.

Outra clara distinção entre os magos dos séculos XVI e XIX encontra-se em sua relação com a narrativa de suas épocas. Os irmãos da recém-criada Golden Dawn teriam se inspirado muito mais por puro romance em torno da magia que por qualquer outro aspecto, com S. L. McGregor Mathers seduzido pelo desejo de fazer da sua vida uma fantasia como Zanoni de Bulwer Lytton. Convenceu Moina a se referir a ele como “Zan”, alegam. Woodford e Wescott, por outro lado, ansiosos por fazerem parte de uma ordem que tinha ainda mais parafernália que a Maçonaria Rosacruciana, de alguma forma fizeram contato com os fabulosos (literalmente) graus da Geltische Dammerung, que significa algo como “hora dourada do chá”. Traziam em mãos seus diplomas de Nárnia, tirados direto do outro lado do guarda roupa. Ou lá estava Alex Crowley, tentando forçosamente convencer sua turminha a chama-lo por Alastor, de Shelley, como algum autonomeado Goth de Nottingham chamado Dave insistindo que seu nome de vampiro era Armand. Ou, pouco tempo depois, havia todo o tipo de bruxaria de culto antiquíssimo, todo tipo de coven de linhagem de sangue despertando como os filhos do dragão onde quer que os escritos de Gerald Gardner estivessem disponíveis. Os ocultistas do século XIX todos pareciam querer ser o tio do Aladdin em uma eterna pantomima. Viver o sonho.

John Dee, do contrário, foi talvez mais premeditadamente consciente que qualquer outra pessoa de sua época. Mais focado e com mais propósito. Ele não precisou procurar por antecedentes nas ficções e mitologias disponíveis, porque John Dee não estava de maneira alguma para brincadeira. Ele inspirou as grandes ficções mágicas de seu tempo, e não o contrário. O Próspero de Shakespeare. Fausto de Marlowe. O jocoso Alquimista de Ben Johnson. A magia de Dee era uma força viva e progressiva, integral em seu tempo, em vez de um espécime extinto e empalhado, sem relevância em histórias e contos de fadas. Tinha em mãos um novo e excitante capítulo, escrito inteiramente em tempo presente, com a aventura mágica em andamento. Por comparação, os ocultistas que o seguiram no decorrer de uns três séculos tiveram no máximo um elaborado apêndice, ou talvez uma bibliografia. Uma liga conservadora, murmurando em sincronia os ritos de um homem morto. Versões covers. Karaokê da feitiçaria. A magia, uma vez dada por vencida ou usurpada de sua função social perdeu sua razão de ser, o astro da noite viu-se em meio ao teatro vazio, de cortinas misteriosas. Cestos empoeirados de vestidos velhos, inescrutáveis adereços para peças canceladas. Na falta de um papel, cresceu incerta de suas motivações, a magia pareceu não ter recursos a não ser bancar o bom cãozinho e seguir o script, resguardando cada último gesto e suspiro, com sua performance esvaziada por hora congelou-se, embrulhou-se; habilmente se reempacotando para a posteridade inglesa.

Quão lamentável então, que tenha sido este momento na história da magia, com conteúdo e função perdidos por trás de um ritual sobrecarregado de pormenores embutidos, que muito fala e pouco faz, precisamente aquele que as últimas ordens decidiram por cristalizar. Sem uma meta ou missão pré-definidas, nenhum conforto vendável, os ocultistas do século XIX parecem ter dado demasiada atenção a um pomposo papel de presente. Possivelmente inaptos a conceber qualquer grupo que não fosse estruturado de maneira hierárquica como nas lojas das quais estavam habituados, Mathers e Wescott obedientemente importaram todos os bens de família maçônicos quando foram mobilhar a sua recém nascida ordem. Todos os trajes, graus e utensílios. A mentalidade de uma ordem secreta elitizada. Crowley, é claro, pegou toda essa bagagem pesada e ostentosa quando puxou seu barco para fundar a O.T.O., e todas as outras ordens desde então, mesmo em suas pretensas empreitadas iconoclastas como a I.O.T., parecem ter adotado o mesmo padrão do auge da era vitoriana. Armadilhas suficientemente sensacionalistas, intrincadas o bastante para chamar a atenção para o que os críticos maldosos poderiam perceber como um vácuo de quaisquer resultados práticos, qualquer efeito sobre a condição humana.

Não poderiam todas as ordens magísticas serem interpretadas como os restos imóveis calcificados de algo antes vivo e mutável?

A décima quarta (e talvez última?) edição da estimada Revista Kaos, de Joel Biroco, trazia uma reprodução de uma pintura, um surpreendente, afetuoso e assustador trabalho nas belas pinceladas de Marjorie Cameron, ruiva assustadora, companheira de lar de Dennis Hopper e Dean Stockwell, reputada dama escarlate, queridinha telemita. Entretanto, quase tão intrigante quanto o trabalho em si é o título: Anjo Fóssil, com suas contraditórias conjurações de algo maravilhoso, inefável e transitório combinadas com isso que é por definição morto, inerte e petrificado. Haverá aí uma metáfora conveniente, tão sóbria quanto instrutiva? Não poderiam todas as ordens magísticas, com suas doutrinas e dogmas, serem interpretadas como os restos imóveis calcificados de algo antes intangível e cheio de graça, vivo e mutável? Como energias, como inspirações e ideias que dançavam de mente em mente, evoluindo pelo menos até que a primeira fração de calcário de ritual e repetição as tenham congelado em seu percurso, paralisando-as no meio do caminho para alguma realização,  algum gesto incompleto? Iluminações de trilobitas. Anjos fósseis.

Algo incipiente e etéreo, uma vez desperto brevemente, como uma pedra saltando pela superfície de nossa cultura, deixando sua leve e tênue marca no barro humano, uma impressão digital que moldamos em concreto com um aparente resquício de conteúdo capaz de nos fazer ajoelhar por décadas, séculos, milênios. Recite as tranquilizantes e familiares cantigas de ninar ou encantamentos palavra por palavra, e cuidadosamente reencene a velha e amada historinha e talvez algo aconteça, como já aconteceu antes. Se amarrarmos um carretel e papel alumínio em uma caixa de papelão fazendo a parecer vagamente um rádio talvez John Frumm apareça e traga helicópteros de volta? As ordens secretas, tendo feito um fetiche de todo tipo de cerimônia que surgiu ou se passou há meio século atrás, sentam como Miss Haversham e se perguntam se os insetos no bolo de casamento de alguma maneira confirmam o Livro da Lei.

Uma vez mais, nada disso tem a intenção de negar a contribuição que as várias ordens e seu trabalho fizeram ao campo da magia, mas meramente observar que essa contribuição admitidamente considerável, é amplamente, de natureza enclausurante em sua preservação do ritual e folclore do passado, ou mesmo que sua elegante síntese de ensinamentos discrepantes é sua principal (e talvez única) conquista. Diante de tais realizações, entretanto, o persistente legado da cultura ocultista do século XIX parece em sua maioria uma antítese à continuidade saudável, proliferação e viabilização da magia, que, como uma tecnologia, com certeza já ultrapassou o datado vaso ornamentado vitoriano e está precisando urgentemente de um transplante. Toda a mobília artificial Maçônica e alicerce implementados por Wescott e Mathers, bastando querer para ser capaz de imaginar outra estrutura válida, tornou-se, para a nossa época, uma limitação e impedimento para o fomento da magia. Resquícios enganosos, faixas cerimoniais apertadas que pressionam qualquer crescimento, restringem todo o pensamento, limitam os caminhos nos quais concebemos ou podemos conceber magia. Imitando os construtos do passado, pensando em termos não necessariamente aplicáveis hoje – que talvez de fato nunca tenham sido – parecem ter deixado o ocultismo moderno totalmente incapaz de visualizar qualquer método diferente no qual possa organizar-se. Inapto a imaginar qualquer progresso, qualquer evolução, qualquer futuro, o que é provavelmente a garantia para que não tenha mesmo nenhum.

para quem buscava qualquer coisa vital dentro da ordem secreta, qualquer coisa que valha algo para qualquer ser racional, não havia nada lá…

Se com frequência a Golden Dawn é o modelo vigente, um exemplar radiante da perfeita ordem de sucesso, isso certamente se dá porque seu segmento incluía muitos escritores renomados de evidente habilidade e valor, que apenas por serem membros, prestigiaram-na com mais credibilidade do que ela jamais teria, graças a eles. O brilhante John Coulthart sugeriu que provavelmente a Golden Dawn era estimadamente reconhecida como uma sociedade literária, onde escrivãos de boa vontade procuraram por uma magia que poderiam encontrar evidência demonstrável, que já estavam vivas e em funcionamento em seu próprio trabalho, onde não tinham a visão ofuscada por quaisquer cerimônias, todo aquele fantástico kit. Um autor que mais claramente contribuiu com algo de valor legítimo para a magia por meio de sua própria ficção do que quaisquer trabalhos na ordem foi Arthur Machen. Ainda que admitindo seu deslumbramento em todo o mistério e maravilha na cerimônia da ordem secreta, Machen sentiu-se compelido a incluir quando escrevia sobre a Golden Dawn em sua autobiografia, Things Near and Far, que “para quem buscava qualquer coisa vital dentro da ordem secreta, qualquer coisa que valha algo para qualquer ser racional, não havia nada lá, ou menos que nada A sociedade enquanto grupo era pura e tolamente preocupada com impotentes e imbecis Abracadabras. Não conheciam nada de nada e se preocupavam mais com um ritual impressionante e sonora terminologia.” Astutamente, Machen notou a aparente relação inversa entre o conteúdo genuíno e o barroco, a forma elaborada que caracterizavam as ordens dessa natureza, uma crítica tão relevante hoje quanto era em 1923.

O território da magia, largamente abandonado como sendo muito perigoso desde a época de Dee e Kelley, foi definido e reclamado (quando isso foi seguro de se fazer) pelos entusiastas ocultistas do século XIX, pela classe média suburbana, que transformaram o ressecado e negligenciado arbusto em uma série de jardins ornamentais maravilhosamente elaborados. Elementos decorativos, estátuas e pagodes bastante intrigantes, idealizados a partir de um produtivo passado pastoril. Deuses em estado terminal reclinados em seu leito de azaleias.

O problema é que jardineiros algumas vezes brigam. Disputas por fronteira. Vendetas e despejos de inquilinos, sob a luz da lua. Uma vez que estas invejáveis propriedades são ocupadas, são com frequência cagadas por novas famílias problemáticas, novas intrigas. Atêm-se às velhas placas de identificação, mantêm-se o mesmo endereço, mas deixam o lugar se acabar, permitindo que seu terreno caia em estado de calamidade. Lesmas deslizando-se, ervas daninhas crescendo entre vinte e duas pétalas de rosa. Nos anos 90 do século XIX, a paisagem do jardim da magia era porcamente mantida com preguiçosos e desleixados loteamentos subaproveitados e mal drenados, pintura descascando nas casas de verão egípcias cafonas, agora meros estábulos onde paranoicos vigilantes rurais ficam acordados a noite toda, mimando suas espingardas e esperando vândalos adolescentes. Não há produto sequer que mereça ser mencionado. As flores não têm perfume e não mais encantam. Você sabe, eram todos aqueles caprichados lamens e tábuas xadrez enoquianas aqui e ali, e agora vejam só. As desgrenhadas sebes com sua topiária Goética tão seca quanto palha, ripas de madeira apodrecidas naquele gazebo de estilo Rosacruziano. No que isso tudo pode resultar é com toda certeza um incêndio.

Leve isso um dia de cada vez, doce Jesus. Infle nossas narinas, nos mantenha unidos. De alguma maneira iremos suportar

Não, francamente. Terra arrasada. Tem-se aos montes pra indicar. Imagine a cara que tinha quando a moda dos robes e estandartes pegou. Perder a vida e o sustento era inevitável, é claro, algum dano colateral no setor de negócios, mas com certeza seria legitimamente belo. As vigas do templo desmoronando em chamas faiscantes. “Esqueça-me! Salve os manuscritos cifrados!” Entre as incontáveis Missas Gnósticas, juramentos, evocações e banimentos, havia qualquer coisa que os distraíssem de um alerta de incêndio? Ninguém tinha certeza de como eles evacuariam a câmara interna, nem saberiam quantos ainda estariam lá dentro. Finalmente surgem contos de bravuras voluntariosas de cortar o coração. “Ele voltou pra resgatar o desenho do LAM, e não conseguimos pará-lo.” Em seguida, um momento de silencio, para refletir. Enterra-se o morto, apontam-se os sucessores. Rompe-se o selo de Hymenaeus Gamma. Um olhar triste sobre nossos acres enegrecidos. Leve isso um dia de cada vez, doce Jesus. Infle nossas narinas, nos mantenha unidos. De alguma maneira iremos suportar.

E agora? Terra arrasada, é claro, é rica em nitratos e provê uma base para agricultura de corte e queimada. No pó carbonizado, o broto verde da recuperação. A vida floresce indiscriminadamente, agitando-se em solo negro. Poderíamos ceder essa majestosa relva de volta para a natureza. Por que não? Pense nisso como ecologia astral, o reclame de um cinturão verde psíquico sob o pavimento rachado do ocultismo vitoriano, como um encorajamento para o crescimento de uma biodiversidade metafísica. Considerada como um princípio organizador para a operação mágica, a complexa e autogeradora estrutura fractal de uma selva pareceria tão viável em cada pequena porção quanto qualquer imposição ilegítima de uma ordem de piso de loja xadrez; pareceria, de fato, consideravelmente mais natural e vital. Afinal, o tráfego de ideias que é a essência e a seiva da magia é mais efetivo hoje em dia em arbustos-telégrafos de um tipo ou outro, em vez de segredos ritualísticos solenemente alcançados após anos de tentativas, CSEs [certificados de educação secundária] de Hogwarts. Não será essa floresta tropical o modo de interação, na verdade, a configuração padrão do ocultismo ocidental para os dias de hoje? Por que não sair e admitir isso, demolir todos esses clubes que não servem nem como ornamento, abraçar a lógica dos cipós? Dinamitar as barragens, liberar a enchente, deixar a nova vida florescer nos ameaçados e moribundos habitats de outrora.

Em termos culturais ocultistas, vida nova é equivalente a novas ideias. Girinos conceituais, recém-nascidos e se contorcendo, possivelmente venenosos, essas pestes de cores vivas devem ser estimuladas em nosso novo ecossistema imaterial, para que este floresça e permaneça saudável. Vamos atrair as pequenas ideias vibrantes, de brilho neon porém sutis, e as grandes ideias mais resistentes que se alimentam delas. Se tivermos sorte, o frenesi alimentar poderá chamar atenção dos grandes paradigmas raptores que atropelam tudo e sacodem a terra. Noções ferozes, da minúscula bactéria ao incrivelmente grande e feio, confinados sem supervisão em uma luta por sobrevivência gloriosa e sangrenta, uma espetacular operação cataclísmica Darwiniana.

As doutrinas mancas se encontram incapazes de superar o primoroso argumento assassino cheio de dentes. Dogmas mastodontes, anciões decaindo na cadeia alimentar, se envergando e desfalecendo sob seu próprio peso para fazer uma refeição, para que então carniceiros vendedores de memorabilia, moscas zombeteiras de salas de bate-papo venham de qualquer lugar depositar seus ovos. Trufas meméticas crescendo sobre o musgo e esterco de Aeons em decomposição. Revelações vivas brotando como London Rocket [planta, nome científico: Sisymbrium irio] selvagem, crescendo abandonadas em um campo minado. Arcádia Pânica, chifruda, assassina e saltitante. Seleção sobrenatural. Os mais fortes e bem adaptados teoremas estão propícios a proliferar e prosperar, o resto é sushi. Isto é com certeza uma Thelema Hardcore em ação, além de representar um autentico e produtivo Chaos Old-skool que poderá aquecer os corações de qualquer Thanateiróide. É difícil ver como a magia enquanto campo de conhecimento possa trazer outra coisa de tão vigorosa aplicação de processo evolutivo se não benefícios.

Por um lado, ao aceitar um meio menos cultivado e refinado, onde a concorrência pode ser feroz e barulhenta, a magia estaria fazendo não mais do que se expor às mesmas condições no que diz respeito aos seus dois parentes mais bem aceitos socialmente: ciência e arte. A apresentação de uma nova teoria para explicar a ausência de massa no universo, ou apresentar alguma instalação conceitual para o prêmio Turner sem dúvidas de que sua obra vai ser submetida ao escrutínio mais intenso, fortemente hostil e possivelmente de um grupo rival. Cada partícula de pensamento que desempenhou um papel na construção do seu projeto vai ser desconstruída e examinada. Somente sem nenhuma falha encontrada o seu trabalho será acolhido no cânone cultural. Com toda a certeza cedo ou tarde seu projeto de estimação, sua teoria de estimação, será banalizada e vai acabar virando decoração de paredes manchadas das velhas e impiedosas arenas públicas. É assim que deve ser. Suas ideias provavelmente se transformam em acidente de percurso, mas o próprio campo é reforçado e aprimorado por essas tentativas incessantes. Ele avança e sofre mutações. Se o nosso objetivo é verdadeiramente o avanço do panorama da magia (e não o avanço de nós mesmos como instrutores), como alguém poderia se opor a tal processo?

Temos a intenção de usar essa informação de alguma maneira, ou foi acumulada somente em benefício próprio?
A menos é claro que um avanço dessa natureza não seja o propósito real, o que nos traz de volta a pergunta feita anteriormente: o que exatamente estamos fazendo e por que estamos fazendo? Sem dúvida, alguns de nós estamos engajados na busca legítima pelo entendimento, mas isso nos leva de volta à questão do porquê. Temos a intenção de usar essa informação de alguma maneira, ou foi acumulada somente em benefício próprio, para nossa satisfação particular? Foi uma busca por reconhecimento, onde alguns poderiam ter alcançado mais facilmente em uma área como ocultismo, onde convenientemente não há padrões mensuráveis sob os quais podemos julgar uns aos outros? Ou será que nos inclinamos à definição de Crowley de que magia é realizar mudanças por meio da vontade, o que quer dizer alcançar alguma medida de poder sobre a realidade?

A última seria, um palpite, a que fornece o motivo que é mais popular atualmente. A ascensão da Magia do Caos na década de 1980 centrada em uma série de promessas de campanha, a mais notável delas a oferta de um sistema de magia baseado em resultados e que era prático e fácil de usar. O desenvolvimento único e altamente pessoal de Austin Spare, o Sigilo Mágico, foi nos dito ser facilmente adaptável para uso universal, fornecendo uma maneira simples e infalível de que o desejo do coração de alguém poderia ser fácil e imediatamente cumprido. Pondo de lado a questão “isso é real?” (e a dúvida subsequente: “se for, por que seus defensores ainda continuam suas rotinas diárias de trabalho, em um mundo progredindo em sentido contrário aos desejos dos corações de qualquer um, a cada semana que passa?”), talvez devêssemos nos perguntar se o prolongamento dessa atitude pragmática, causal para com o trabalho oculto, seja mesmo um uso digno de magia.

Sejamos honestos, a maior parte da feitiçaria causal tal como é praticada provavelmente é feita na esperança de realizar alguma mudança desejada em âmbito grosseiro e material. Em termos reais, isso provavelmente envolve pedidos de dinheiro (mesmo Dee ou Kelley não estavam pedindo aos anjos acima um trocado de vez em quando?), pedidos por alguma forma de gratificação emocional ou sexual, ou talvez, em algumas ocasiões, um pedido para que aqueles que nos menosprezaram ou nos ofenderam sejam punidos. Nessas circunstâncias, mesmo em um cenário não tão cínico onde o propósito da magia seria, por assim dizer, interceder por um amigo pela recuperação de uma doença, não podemos alcançar esses objetivos de forma muito mais efetiva e honesta apenas resolvendo essas coisas em plano material e não divino?

nossas melhores e mais puras ações são aquelas realizadas “sem ânsia de resultado”
Se, por exemplo, é dinheiro que almejamos, por que não seguir o exemplo legítimo de Austin Spare (quase o único dentre os magos que parece ter visto o uso da magia para atrair riqueza como uma anátema) considerando tais preocupações? Se for dinheiro que queremos por que não podemos levantar magicamente nossas bundas gordas, magicamente trabalhar pelo menos uma vez na nossa sedentária vidinha mágica, e vemos se as moedas requisitadas não aparecem magicamente algum tempo depois em nossas contas bancárias? Se for o afeto de alguma paixão não correspondida o que estamos buscando, então a solução é ainda mais simples: jogar boa noite cinderela em sua bebida e estupra-la [1]. Afinal, a miséria moral do seu ato não será pior e pelo menos você não vai ter que mover meio mundo no transcendente pra fazer coisas como segura-la para você. Ou se há alguém que você genuinamente acredita merecer um castigo terrível então ponha na estante a sua clavícula menor de Salomão e vá direto telefonar pro Frankie-Navalha ou pro Big Stan. O capanga contratado ilustra bem a decisão ética se comparado ao uso de anjos caídos pra fazer aquele trabalho sujo (isso assumindo que ir até a casa do sujeito tirar satisfação, ou apenas, você sabe, superar isso e seguir em frente não sejam opções viáveis). Ou ainda mesmo o exemplo do amigo doente citado anteriormente: apenas faça uma visita. Apoie-o cedendo um pouco do seu tempo, seu dinheiro, seu amor, sua conversa. Cristo, envie um cartão com o desenho de um coelho triste na capa. Vocês dois se sentirão melhores com isso. Magia intencional ou causal pode muitas vezes parecer com obter a realização de um fim bastante comum sem fazer o trabalho comumente associado a ele. Poderíamos muito bem afirmar, citando Crowley, que nossas melhores e mais puras ações são aquelas realizadas “sem ânsia de resultado”.

Talvez sua outra famosa máxima, que advoga que buscamos “o objetivo da religião” utilizando “o método da ciência”, ainda que bem intencionada, talvez tenha levado a comunidade magística (tal como ela é) a esses erros fundamentais. Afinal de contas, o “objetivo da religião”, se observarmos a palavra latina “religare” (uma palavra de raiz semântica comum a outras palavras tais como “ligamento” e “ligadura”) parece insinuar que “todos fossem unidos em uma única crença”. Este impulso à evangelização e conversão deve, em qualquer aplicação no mundo real, chegar a um ponto onde aqueles vinculados a um segmento partirão pra cima daqueles ligados por outro. Neste ponto, inevitavelmente e historicamente, ambas as facções irão levar adiante sua traçada vontade em vincular uma à outra em sua única e verdadeira crença. E então nós massacramos os carolas, os crentes, os góis, os iídiches, os cafres e os cabeças de turbante. E quando isso historicamente e inevitavelmente não funcionar, nós nos sentamos e pensamos nas coisas por um século ou dois, damos um intervalo decente, e então fazemos tudo isso de novo, que nem antes. O objetivo da religião parece estar, enquanto algo claramente benigno, fora da estrada por uma milha ou duas, jogado para além do acostamento. A meta, aquilo que ela mirava, permanece intocável, e a única coisa atingida é Omagh ou Kabul, Hebron, Gaza, Manhattan, Baghdad, Kashmir, Deansgate, e por aí em diante, e em diante, pra sempre.

não poderíamos dizer que a magia tenha uma simpatia natural com a anarquia, o oposto do fascismo?
A noção de amarrar tudo que se encontra na raiz etimológica da religião é também encontrada, de forma reveladora, no agrupamento simbólico de varas amarradas, os fachos, que mais tarde daria origem ao termo fascismo. Fascismo, baseado em conceitos místicos tais como sangue e “volk” (povo em alemão), seria mais propriamente visto como religião que como instancia política, uma política embasada em alguma forma de razão, porém equivocada e brutal. A ideia de sermos unidos em uma única fé, uma única crença; que a união (e também, inevitavelmente, a uniformidade) faz a força, parece ser antitética à magia, que é sobretudo, decerto pessoal, subjetiva e pertinente ao individual, à responsabilidade por cada criatura sensível para alcançar seu próprio entendimento do sagrado e assim fazer as pazes com Deus, o universo e tudo o mais. Então, se podemos dizer que a religião encontra seu equivalente político próximo ao fascismo, não poderíamos dizer que a magia tenha uma simpatia natural com a anarquia, o oposto do fascismo (derivado dos termos an-archon, ou “sem líder”)? O que é claro nos leva de volta aos templos incendiados, líderes de ordens destituídos e despejados, a terra queimada e a abordagem de natureza selvagem e anárquica da magia, sugerido anteriormente.

A outra metade da máxima de Crowley, na qual ele propõe a metodologia da ciência também parece ter suas falhas, ainda que mais uma vez, seja bem intencionada. Baseando-se em resultados materiais, a ciência talvez seja o modelo que levou as artes mágicas ao beco sem saída causal descrito acima. Além disso, se aceitarmos os meios da ciência como um procedimento ideal dos quais podemos aspirar em nossos trabalhos de magia, não corremos o risco de adotar também uma mentalidade científica materialista no que diz respeito às várias diferentes forças que preocupam o ocultista? Um cientista que trabalha com eletricidade, por exemplo, irá justamente considerar a energia como moralmente neutra, uma força sem consciência que pode facilmente ser usada pra suprir um hospital, ou aquecer uma lâmpada de lava ou mesmo fritar um negro com idade mental de 9 anos no Texas. Magia, por outro lado, por experiência própria, não parece ser neutra em sua natureza moral, não parece algo sem consciência. Do contrário, como um agente, parece estar ciente de si e ser ativamente inteligente, viva, fora dos trilhos de alta tensão. Ao contrário da eletricidade, parece ter uma personalidade complexa, com características quase humanas, tais como, por exemplo, um aparente senso de humor. Ainda bem, levando em conta o desfile de idiotas de nariz empinado a quem a magia tem entretido e tolerado ao longo dos séculos. Magia, em suma, não parece estar lá apenas pra energizar sigilos que não passam de versões astrais de uma gambiarra ou aparato pra poupar trabalho. Diferente da eletricidade, ela parece ter em mente a sua própria agenda.

Para além de tudo isso, há outros ruídos, razões convincentes do por que pensar magia como uma ciência nos limita. Primeiramente e nitidamente que não é. A magia, depois que renunciou a toda e qualquer aplicação prática ou mundana após o crepúsculo dos alquimistas, não pode mais ser considerada como uma verdadeira ciência, assim como também, podemos dizer, a psicanálise. Por mais que Freud possa ter desejado o contrário, por mais que tenha, entretanto, lamentado que Jung tenha arrastado seu pretenso método científico para o fundo do escuro e borbulhante lodo do ocultismo, magia e psicanálise não podem nunca, por definição, serem permitidas a terem um lugar entre as ciências. Ambas lidam quase exclusivamente com fenômenos que não podem ser repetidos nas condições de laboratório e que, sendo assim, existem fora do alcance da ciência, preocupada apenas com as coisas que podem ser medidas e observadas, comprovadas empiricamente. Uma vez que a própria consciência não possa ter sua existência comprovada em termos científicos, então nossas afirmações que diziam que a consciência é atormentada seja pela inveja do pênis ou por demônios das Qlippoth devem permanecer para sempre além das fronteiras limítrofes do que pode ser verificado por exame racional. Francamente, deve-se dizer que a magia, quando considerada ciência, se coloca em um nível equivalente ao de alguém que escolhe os números da loteria utilizando a data do aniversário de alguém que ama.

Esse parece ser o “X” da questão: Se a magia é uma ciência, claramente não é uma particularmente bem desenvolvida. Onde estão, por exemplo, os equivalentes mágicos das teorias geral ou restrita da relatividade de Einstein, ou mesmo a interpretação de Bohr em Copenhagen? Sejamos objetivos, onde estão nossas analogias para a lei da gravidade, termodinâmica e todo o resto? Erastóstenes uma vez mediu a circunferência da terra utilizando geometria e sombras. Quando foi a última vez que utilizamos algo tão útil e tão engenhoso quanto isso? Houve qualquer coisa parecida com alguma teoria geral desde a Tábua de Esmeralda? Uma vez mais, talvez a preocupação de uma magia com causa e efeito tenha sua parcela de culpa nisso. Nossos axiomas em maioria parecem estar no nível de que se eu fizer “A” então “B” vai acontecer. Se nós dissermos essas palavras e chamar por estes nomes então certas visões aparecerão para nós. E como exatamente isso acontece, bem, quem se importa? Desde que tenhamos resultados, o pensamento corrente parece ser por que se importar em como obtemos? Se batermos essas duas pedras uma na outra depois de um tempo elas vão fazer uma faísca e toda essa grama seca vai pegar fogo. E você já reparou em como ter certeza de que se você sacrificar um porco durante um eclipse o sol sempre retorna? A magia, na melhor das hipóteses, é ciência paleolítica. Certamente é melhor deixar de lado o discurso da entrega do Prêmio Nobel para quando aparar os cabelos da testa.

nós nos tocamos que não somos nem missionários nem botânicos, mas o que então somos nós?

Aonde exatamente, podemos razoavelmente perguntar, isso tudo nos leva? Tendo imprudentemente descartado nossas ordens ou tradições consagradas pelo tempo e rasgando nossa declaração de intenções; tendo dito que a magia não deve ser religião e não pode ser ciência, teremos nós levado essa abordagem de Ano Zero do Khmer Vermelho longe demais, cortando nossas próprias jugulares com a Navalha de Occam? Agora que trouxemos abaixo as nossas marcações e reduzimos nosso território a uma mata indistinta, será mesmo que esta é a melhor hora para jogarmos fora nossa bússola? Agora, enquanto a noite cai sobre a selva, nós nos tocamos que não somos nem missionários nem botânicos, mas o que então somos nós? Párias? Chiados breves no breu da escuridão? Se as metas e métodos da ciência ou da religião são inviavelmente fúteis, mero fim da linha definitivo, qual outro papel para a magia podemos conceber a existência? E por favor, não diga que é algo tão difícil assim, pois por todos os mantos negros e assustadores, tenderíamos a nos assustar facilmente.

Se não podemos considerar propriamente como ciência ou religião, seria uma provocação apresentar a sugestão de que podemos pensar magia como arte? Ou mesmo a Arte, se você gostar da ideia? Não seria como se esta noção fosse algo sem precedentes. Pode até mesmo ser visto como um retorno às nossas origens xamânicas, quando a magia era expressada em máscaras e mímicas e marcas nas paredes, os pictogramas que nos deram nossa linguagem escrita de modo que essa linguagem pudesse então nos possibilitar a consciência. Música, performance, pintura, dança, poesia e pantomima poderiam ser todas facilmente imaginadas como tendo se originado do repertório do xamã de truques mágicos para alterar a consciência. Escultura evoluindo a partir de bonecas de fetiche, a Venus de Willendorf transformando-se em Henry Moore. Trajes customizados e desfiles de passarela, Erte e Yves St. Laurent, decorrentes de fortes pisadas iluminadas pelo fogo, com peles contas e galhos, projetando formas para surpreender e despertar. Baronesa Tatcher, em seu chá de bebê, sugeriu que mais uma vez a sociedade abraça “valores Vitorianos”, uma ideia que certamente parece ter pego dentre a fraternidade mágica. Isso não parece ser nem de longe o suficiente, no entanto. Em vez disso, vamos clamar por um retorno dos valores Cro-Magnons: mais criativo e robusto, e com cabelo melhor.

É claro, não precisamos viajar tão longe na antiguidade admitidamente especulativa por evidencias de uma relação íntima e única desfrutada pela arte e magia. Das pinturas nas paredes das cavernas de Lascaux, entre a estatuária grega e frisos dos mestres flamengos, até William Blake, e em diante aos Pré Rafaelitas, os simbolistas e surrealistas, é cada vez mais raro encontrarmos artistas com estatura real, sejam eles pintores, escultores, músicos, que não tenham recorrido em algum momento ao pensamento ocultista, seja através da atuação em seu alegado envolvimento com alguma ordem secreta ou com a maçonaria, como Mozart, ou a partir de uma visão cultivada particular, como Elgar. A Opera aparentemente tem suas origens na alquimia, produzida por seus primeiros pioneiros como uma forma de arte que incluía todas as outras artes dentro dela (musica, texto, performance, figurinos, cenários pintados) com a intenção de transmitir ideias alquímicas na sua forma mais abrangente artística e portanto, mais celestial. Da mesma forma, com as artes visuais não precisamos invocar exemplos óbvios de uma influência ocultista, tal como Duchamp, Max Ernst ou Dali, quando existem nomes mais surpreendentes, como Picasso (quando em sua juventude passou mergulhado em haxixe e misticismo, com sua obra posterior preocupado com ideias então ocultas pertencentes à quarta dimensão), ou os quadrados e retângulos calculados de Mondrian, criados para expressar noções, de acordo com ele, de seu estudo da teosofia. Na verdade, grande parte da pintura abstrata se deve à famosa sucessora de Blavatsky, Annie Besant, e da publicação de sua teoria de que as energias essenciais rarefeitas de raios, correntes e vibrações da Teosofia poderiam ser representadas por intuídos e disformes redemoinhos de cor, uma ideia da qual muitos artistas inclinados à moda mística aproveitaram avidamente.

as artes sempre consideraram a Magia com mais simpatia e mais respeito que a ciência e a religião
Marjorie Cameron’s “Fossil Angel”

A literatura, por outro lado, está tão intrinsecamente envolvida com a essência própria da magia que as duas podem ser efetivamente consideradas a mesma coisa. Feitiços e soletrar (spell e spelling. o verbo “to spell” pode ser traduzido tanto como soletrar quanto enfeitiçar), encantos bárdicos, gramáticas e grimórios, magia como “enfermidade da palavra” como Aleister Crowley tão inspiradamente descreveu. Odin, Thoth e Hermes, deuses da magia e da escrita. A terminologia mágica, seus simbolismos, conjurações e evocações, quase idênticos à da poesia. No início era o verbo. Com a magia sendo quase totalmente uma construção linguística é desnecessário ditar a longa lista dos muitos literatos praticantes de ocultismo. Na escrita, como na música ou na pintura, uma intensa e íntima conexão com o mundo da magia é tanto evidente quanto óbvia, e parece completamente natural. Com certeza, as artes sempre consideraram a Magia com mais simpatia e mais respeito que a ciência (que, historicamente, sempre buscou provar que os ocultistas são fraudulentos ou estão iludidos) e a religião (que, historicamente, sempre buscou provar que os ocultistas são inflamáveis). Enquanto elas compartilham o status social e amplo respeito concedidos à igreja e ao laboratório, o campo da arte não visa excluir, nem é governado por uma doutrina que é inimiga da magia, tal como pode ser dito de seus dois companheiros indicadores do progresso cultural da humanidade. Afinal, enquanto a magia tem produzido, em tempo relativamente recente, alguns poderosos teólogos dignos de nota e mesmo alguns poucos cientistas, ela tem produzido uma infinidade de inspirados e inspiradores pintores, poetas e músicos. Talvez devêssemos ficar com aquilo que nós sabemos que somos bons?

As vantagens de tratar magia como uma arte parecem à primeira vista consideráveis. Por um lado, não há interesses capazes de sustentar uma objeção à inclusão da magia no cânone, mesmo que eles se entretenham contestando a princípio, o que é pouco provável. Isso está claramente longe de ser o caso com a ciência e com a religião, que por natureza própria tem questão de honra em ver a magia insultada e ridicularizada, marginalizada e deixada para enferrujar no ferro velho da história junto com as teorias da terra plana, da memória da água e do flogisto. A arte, como categoria, representa um ambiente fértil e hospitaleiro onde a energia da magia poderia ser direcionada para seu crescimento e desenvolvimento como campo, em vez de canalizada em lutas fúteis para aceitação, ou queimada inutilmente e deixada de lado com o passar do tempo em repetidos rituais do século passado. Outro benefício, é claro, se encontra na numinosidade da arte, sua própria falta de definição em arestas rígidas e, portanto, sua flexibilidade. As questões “o que exatamente estamos fazendo e por que estamos fazendo”, que questionam o “método” e o “objetivo”, são trazidas a uma nova luz quando questionadas em termos da arte. O único objetivo da arte pode ser o de lucidamente expressar a mente, o coração e a alma humana em todas as suas incontáveis variações, assim para alcançar uma melhor compreensão do universo ou de si mesmo, favorecendo o seu crescimento em direção à luz. O método da arte é o que quer que possa ser mesmo além do imaginado. Esses parâmetros de propósito e procedimento não são suficientemente elásticos para permitir a inclusão de agendas mais radicais ou mesmo conservadoras para a magia? Ocultismo vital e progressivo, belamente expressado, que não tem obrigação alguma de se explicar ou se justificar. Cada pensamento, cada linha, cada estranha imagem feita para nenhum outro propósito senão de serem ofertas dignas aos deuses, à arte, à própria magia. A arte pela arte.

o campo de mais rápida expansão de interesse científico é, aparentemente, o estudo da consciência

Paradoxalmente, mesmo aqueles ocultistas amantes de uma visão cientificista da magia poderiam ter motivos para celebrar essa mudança de ênfase. Como argumentado acima, magia nunca poderá ser ciência da maneira como a ciência é definida atualmente, que quer dizer como sendo inteiramente baseada em resultados reproduzíveis dentro do mundo mensurável e material. No entanto, ao limitar as suas atividades exclusivamente ao mundo material, a ciência automaticamente desqualifica-se de falar do mundo interior, imaterial, que é na verdade a maior parte da nossa experiência humana. A ciência talvez seja a ferramenta mais efetiva que a consciência humana tenha desenvolvido até então com a qual podemos explorar o universo lá fora, e ainda assim este polido e sofisticado instrumento de escrutínio é incapacitado por um ofuscante ponto cego na medida em que não pode examinar a própria consciência. Desde o final dos anos 1990, o campo de mais rápida expansão de interesse científico é, aparentemente, o estudo da consciência, com duas grandes escolas de pensamento-sobre-o-pensamento até então emergentes, cada uma se contrapondo a outra. Uma sustenta que a consciência é uma ilusão biológica, meros processos cerebrais automáticos e comportamentais que são dependentes de esguichadas de glândulas e penetração de enzimas. Ainda que essa descrição não pareça adequada às muitas maravilhas encontradas no interior da mente humana, seus defensores parecem quase certos de apoiar um vencedor, tendo visto que sua contundente teoria materialista é a única que tem uma chance de provar-se em termos de uma ciência materialista tapada. No outro campo, descrita como a mais transpessoal em sua abordagem, o atual teorema em liderança é de que a consciência é alguma “coisa” peculiar permeando o universo conhecido, na qual cada ser senciente é um pequeno reservatório temporário. Esse ponto de vista, o qual provavelmente gera grande simpatia daqueles com inclinações ao oculto, é quase certamente condenado em termos de alcançar uma eventual credibilidade científica. A ciência não pode nem mesmo discutir adequadamente o pessoal, de modo que o transpessoal sequer tem chance. Esses são assuntos do mundo interior, e a ciência não chega até lá. É por isso que sabiamente deixa a exploração do interior da humanidade nas mãos de uma ferramenta sofisticada e que é especificamente desenvolvida para este uso, esta que chamamos de arte.

Se a magia fosse considerada como uma arte ela teria acesso culturalmente válido à paisagem interior [Infrascape], os territórios imateriais intermináveis que são ignorados e invisíveis à ciência, que são inacessíveis à razão científica, e, portanto, compreendem o terreno mais natural da magia. Voltar esforços para a exploração criativa do espaço interior da humanidade pode não só ser de utilidade humana massiva, como pode eventualmente restaurar à magia todo o propósito e relevância, a utilidade demonstrável que lhe foi tão lamentavelmente privada, e por tanto tempo. Visto como arte, o campo ainda poderia produzir as resmas de teorias especulativas de que tanto gosta (afinal, filosofia e retórica podem ser vistas mais facilmente como arte que como ciência), contanto que fossem escritas de maneira bela e interessante. Enquanto, por exemplo, o Livro da Lei poderia ser questionado em valor quando considerado puramente como texto profético descrevendo definitivas ocorrências de estados de consciência porvir, não se pode negar que seja um exemplo de escrita da porra, que merece ser reverenciado como tal. O ponto é que se a magia abandonasse suas vazias pretensões enquanto ciência e saísse do armário como arte, obteria ironicamente a liberdade para seguir em suas aspirações científicas, talvez até mesmo se valendo de um teorema do campo unificado do sobrenatural, tudo isso em termos aceitáveis para a cultura moderna. A obra prima de Marcel Duchamp, A Noiva Despida Por Seus Celibatários, é mais possível que seja pensada como alquimia genuína, que como descrita em um trabalho de um pobre coitado que sugere que tenha algo a ver com fusão a frio. A arte é claramente um ambiente muito mais confortável para o pensamento mágico do que a ciência, com uma decoração muito mais relaxante e mobília muito mais bonita.

Mesmo aquelas almas danadas tão institucionalizadas como os membros de ordens mágicas que nem conseguem imaginar algum estilo de vida que não envolva pertencer a uma elite secreta e cabal não tem razão para se desesperar ao encontrar a si próprios sem teto e solitários em nossa nova proposta selvagem. Arte não tem ordens, porém têm movimentos, escolas e panelinhas com toda a dissimulação, narizes empinados e elitismo que qualquer um poderia desejar. Melhor ainda, uma vez que movimentos artísticos não ficam competindo uns com os outros pelo mesmo território como as ordens mágicas (como podemos dizer, por exemplo, que William Holman Hunt compete com Miró, ou Vermeer?), isso deve evitar a necessidade que as diferentes escolas de pensamento ocultista têm de criar rixas, ou ataques, ou como geralmente acontece fazer a egípcia tal qual meras imitações de dar pena de Criswell-do-plano-9-do-espaço-sideral.

A quem nossos rituais e adornos visam agradar, se não os deuses?

Assim como não há necessidade de descartar inteiramente as fraternidades, do mesmo modo não há necessidade para os que cresceram ligados a essas coisas de descartarem suas armadilhas rituais, quer dizer, seus rituais. A única coisa que pedimos é que eles abordem estes assuntos com mais criatividade e com um olhar mais criterioso e ouvidos para o que é profundo; o que é belo, original e poderoso. Que façam varinhas, selos e lamens aptos a estarem em exposições de arte marginal (quão difícil isso pode ser? Mesmo pacientes mentais são qualificados), façam de todo ritual uma peça de teatro impressionante e intensa. Quer consideremos magia arte ou não, essas coisas precisam ser minimamente ditas. A quem nossos rituais privados e adornos feitos visam agradar, se não os deuses? E quando sequer foi que eles nos deram a impressão de que estariam satisfeitos com algo que não fosse minimamente requintado ou original? Deuses, ou seja lá o que forem, são conhecidos por serem notoriamente parciais à criação, e portanto podemos presumir que sejam capazes de apreciar a criatividade humana, a coisa mais próxima que desenvolvemos de uma brincadeira divina e nossa mais sublime realização. Pensar a magia uma vez mais como arte permitiria que a ela conservasse tudo o que tem de melhor do que um dia já foi, ao mesmo tempo em que ofereceria a oportunidade para que ela floresça e progrida rumo a um futuro onde possa realizar muito mais.

Como é que esta mudança de premissa tem impacto, então, sobre nossa metodologia? Que mudanças de ênfase podem ser vinculadas, e poderiam tais alterações serem vantajosas tanto à magia enquanto campo como para nós enquanto indivíduos? Se tivermos uma intenção séria de reinventar o oculto como A Arte, uma alteração básica em nossos métodos de trabalho que poderia produzir benefícios consideráveis seria se nós nos determinássemos a cristalizar qualquer ideia, verdades ou visões que nossas viagens mágicas tenham nos proporcionado em algum artefato, algo que todo mundo pudesse ver também, só pra variar. A natureza do artefato, seja um filme ou Haikai, um expressivo desenho a lápis ou um exuberante espetáculo teatral, é completamente sem importância. Tudo o que importa é que seja arte e que permaneça fiel à sua inspiração. Uma vez que tenha sido adotado, em um único golpe, um ajuste tão pequeno de processo quanto esse poderia verdadeiramente transformar o mundo em magia. Em vez de ser por uma motivação pessoal, de funcionamento toscamente causal tanto de intenção duvidosa e resultado duvidoso, magia de punheta que termina geralmente em satisfação limitada, nossas transações com o mundo oculto seriam produtivas, gerando questões em resultados tangíveis onde todos possam julgar seus valores por si próprios. Em termos puramente evangélicos, como propaganda de uma visão de mundo mágica mais iluminada, a arte com certeza representa a nossa “evidência” mais convincente de outros estados e planos de existência. Enquanto os pensamentos de Austin Spare são inegavelmente interessantes quando expressados na forma de escrita como teoria, é sem dúvida seu talento como artista que proporciona a percepção de entidades e outros mundos realmente testemunhados e registrados, a autenticidade imediata que conferiu a Spare muito de sua reputação como um grande mago. Ainda mais importante, um trabalho como o de Spare fornece uma janela para o mundo oculto, permitindo aqueles que estão fora uma expressão mais eloquente acerca do que é a magia do que qualquer trato arcano, oferecendo-lhes uma razão legítima para se aproximar do oculto pra começo de conversa.

Com a arte, a visão mais forte vai prevalecer, mesmo que demore décadas, séculos
Em nosso cenário selvagem para a magia, com a competição Darwiniana feroz e justa entre as ideias implícita, tratar o oculto como uma arte também poderia emprestar um meio de lidar com (ou fomentar) quaisquer disputas que possam surgir. A arte tem uma maneira de resolver tais disputas por si, indiscutivelmente, sem recorrer a processos capengas como, por exemplo, resolução violenta de conflitos, litígios, ou ainda pior, democracia de patricinha. Com a arte, a visão mais forte vai prevalecer, mesmo que demore décadas, séculos para que aconteça, como William Blake. Não há necessidade de sequer fazer uma votação sobre qual é a visão mais forte: esta seria aquela sentada quietinha em seu canto indisputável da nossa cultura, indiferente palitando os dentes com os esternos de seus rivais. Mozart abate um Salieri, dorme durante dois dias após o banquete, período no qual a savana pode relaxar. Dando o bote de repente por entre as sombras das torres de concreto, J. G. Ballard corta fora Kingsley Amis, enquanto Jean Cocteau não sai da cola da ossuda bunda Imperial-Ciclópica [possível referência ao Ku Klux Klan] de D. W. Griffith como um filho da puta. Uma seleção natural artística, sanguinária, mas equilibrada, parece uma forma muito mais razoável de resolver assuntos que decisões arbitrárias e sem resposta, proferidas pelos chefes de ordens, como Moina Mathers dizendo a Violet Firth que sua aura não tinha os símbolos adequados.

Além disso, se a viciosa luta por sobrevivência é promulgada decretada nos termos daquele cuja a ideia é mais potente e mais bela em sua expressão, então os espectadores da briga-de-galos estão mais propensos a acabar sujos de metáforas magníficas do que com respingos frescos de entranhas. Mesmo nossas brigas mais incestuosas e sem sentido podem, assim, ter um produto que enriquece o mundo em alguma pequena parcela, em vez de nenhum resultado, salvo de que a magia pareça uma briga de parquinho ainda mais infantil e inane do que todos pensavam que era. Ao julgar por seus méritos, tal atitude de lógica selvagem para com a magia, com sua estética predatória e ideias competindo em uma mata fertilizada por seus requintados excrementos culturais, parece oferecer ao ocultismo uma situação em que todos ganham. Como poderia alguém ser contra, exceto no caso daqueles cujas ideias podem ser vistas como gordas, lentas, incapazes de voar, e fonte acessível de proteína; aqueles bem qualificados como presa primária que talvez estejam começando a suspeitar que isso tudo seja um argumento de um tigre para safáris em campo aberto?

Por que deveria o medo do ridículo causar problemas para ocultistas que juraram manterem-se firmes frente às próprias portas do inferno?
Após análise, estas últimas dúvidas e medos mencionados, ainda que certamente triviais dentro de um contexto de bem estar da magia enquanto campo, é provável que sejam obstáculos mais graves para qualquer grande aceitação de uma ética-pantanal primal, como é proposta. No entanto, se aceitarmos que as únicas alternativas para a selva sejam um circo ou um jardim zoológico, a ideia talvez seja mais considerável. E se nossas preciosas ideias devam ser rasgadas em pedaços no momento em que mal estão saindo do ninho, mesmo que isso seja, é claro, angustiante, não é mais que uma prova da qual suportou qualquer poeta estudante ocasional ou pintor de domingo que expõe seu desajeitado esforço ao julgamento de outro. Por que deveria o medo do ridículo ou da crítica, medo do qual o mais baixo bêbado de karaokê está aparentemente bem capaz de superar, causar problemas para ocultistas que juraram manterem-se firmes frente às próprias portas do inferno? Na verdade, a superação de tais fobias simples não deveria ser pré-requisito pra quem quer trajar a si como um mago? Se considerar magia como arte e arte como magia, se como os antigos xamãs percebêssemos um dom para a poesia como um poder mágico, magicamente concedido, não teríamos finalmente uma resposta quando uma pessoa qualquer na rua nos pede, de forma razoável, para demonstrar um pouco de magia, então, já que somos tão taumatúrgicos?

O quão empoderador seria para ocultistas acumular constantemente, através de um trabalho árduo, genuínas habilidades mágicas que podem ser comprovadamente exibidas. Talentos que gente comum, inteligente e racional pode muito facilmente aceitar como sendo verdadeiramente mágicos em sua origem; prontamente se envolver de uma forma que o ocultismo atual, com o seu obscurantismo muitas vezes deliberado e desnecessário, não pode gerir. Apesar da magia ser mais seguramente expressa e sentida na maioria dos grimórios modernos, um mero folhear das Ficções de Borges, ou um vislumbre de Escher ou de um lado ou dois de Capitão Beefheart seria muito mais provável de persuadir o leitor comum para um ponto de vista magicamente receptivo. Se a própria consciência, com sua existência no mundo natural, está além da capacidade de comprovação da ciência, sendo, portanto, sobrenatural e oculta, certamente a arte é um dos meios mais óbvios e espetaculares pelo qual o reino sobrenatural da mente e da alma se revela, se manifesta sobre um plano material bruto.

O poder da arte é imediato e irrefutável, imenso. Ela altera a consciência, consideravelmente, tanto do artista quanto da sua audiência. Ela pode mudar a vida dos homens e, dessa forma, mudar a história e a própria sociedade. Ela pode nos inspirar a maravilhas ou horrores. Ela pode oferecer as mentes jovens, maleáveis e expansíveis, novos espaços de habitação, ou oferecer conforto aqueles que se encontram perto da morte. Ela pode lhe fazer se apaixonar, ou fatiar a reputação de algum ídolo num piscar de olhos, e o manter mutilado frente aos seus adoradores, morto para a posteridade. Ela conjura demônios de Goya e anjos de Rosetti até a aparência visível. É ao mesmo tempo a perdição e o instrumento mais amado dos tiranos. Ela transforma o mundo em que vivemos, altera nossa visão do universo, altera a nossa visão daqueles a nossa volta e até de nós mesmos. Qual a conquista da feitiçaria que já não foi alcançada pela arte? Ela conduziu um bilhão para a luz e assassinou outro bilhão. Se o nosso objetivo é o desenvolvimento do poder e das habilidades ocultas, não poderíamos ter um meio mais produtivo e poderoso do que a arte para chegarmos lá. A arte pode não fazer sua vassoura ter vida própria e fazer uma faxina para você… mas tampouco poderia a magia, em todo caso… no entanto, simplesmente por haver imaginado a cena, Walt Disney ganhou dinheiro mais do que suficiente para pagar alguém para que cuidasse disso em seu lugar. E ainda sobrou o suficiente para guardar sua cabeça neste enorme cubo de gelo marcado por hieróglifos nalgum lugar abaixo do Magic Kingdom. Isso, certamente, é toda a implacável influência satânica que qualquer um, são ou louco, poderia pedir [Moore se refere a uma provável lenda urbana, difícil dizer se está sendo irônico ou não].

Ao reclamar a magia como A Arte, nua e furiosa numa selva de Rousseau sem nenhuma cabana, é provável que os apreensivos pela preposição sejam aqueles que se sintam desprivilegiados pela ideia, aqueles que suspeitam que a sua oferta artística está aquém da tarefa dada. Tais temores, embora compreensíveis, não podem estar ao lado da imagem heroica, destemida, que muitos ocultistas têm de si mesmo. Será que não há realmente nada, nenhum artesanato ou ofício, que eles não possam usar para implementar sua magia? Eles não têm nenhum talento que possa ser usado de forma criativa e mágica, seja para a matemática, a dança, os sonhos, o toque de tambor, a comédia stand-up, o strip-tease, o grafite, o encantamento de cobras, as demonstrações científicas, ou mesmo para serrar vacas perfeitamente ao meio, ou esculpir bustos assustadoramente realistas dos monarcas europeus a partir de suas próprias fezes? Ou, tipo, qualquer coisa? Mesmo que tais habilidades não sejam hoje abundantes ou evidentes, tais almas tímidas não poderiam imaginar que a capacidade para algum trabalho honesto precisa ser primeiro desenvolvida para depois ser aplicada para algo de útil? O trabalho duro não deveria ser um conceito totalmente estrangeiro para o Mago. E não é nem mesmo A Grande Obra que nós estamos necessariamente discutindo aqui, é apenas a Obra Boa-Mas-Nem-Tanto-Assim. Algo muito mais atingível. Se até mesmo isso soa muito difícil e trabalhoso, você pode sempre tornar a aquisição de talento artístico profundo e a conquista do sucesso o desejo mais íntimo do seu coração e então simplesmente bater uma para um sigilo. Aparentemente, nunca falha. Então, qual a desculpa que alguém teria para não abraçar a arte como magia, e a magia como A Arte? Se você é, por qualquer razão, realmente incapaz de ter alguma criatividade, hoje ou sempre, então você tem realmente certeza que a magia é o campo certo para você? Apesar de tudo, as redes de fast-food estão sempre contratando. Em dez anos você poderia se tornar um gerente.

Ao compreender a arte como magia, ao conceber caneta ou pincel como varinha mágica, nós devolvemos ao mago seus poderes
Ao compreender a arte como magia, ao conceber caneta ou pincel como varinha mágica, nós então devolvemos ao mago seus poderes xamânicos originais e a sua importância social, damos de volta ao ocultismo tanto um produto quanto um sentido. Quem sabe? Pode ser que ao implementarmos tal mudança terminemos por remover toda a nossa necessidade egóica de encantos e maldições , nossa magia superficial. Se formos realizados e prolíficos em nossa arte, talvez os deuses se preparem para nos enviar vales postais substanciais a cada semana, sem que nós sequer peçamos. Nos assuntos sexuais e românticos, como artistas nós nos sairíamos tão bem quanto Picasso. Mulheres e homens e animais se ofereceriam nus aos nossos pés. Já acerca da destruição de nossos inimigos, nós simplesmente não nos incomodaríamos de chamá-los para nossas celebrações e inaugurações, e eles simplesmente morreriam, com o tempo.

Este re-imaginar da magia como A Arte poderia beneficiar claramente o mundo ocultista em geral e o mago individual em particular, mas não esqueçamos o fato de que ele também poderia beneficiar as artes. É preciso ser dito que a cultura de massa [mainstream] moderna, em grande parte e sob a maioria das perspectivas civilizadas, é um balde plástico cheio de doença. Os artistas de nosso tempo (admitidamente, com algumas notáveis exceções) parecem ter a única intenção de refletir adiante o vazio e a consequente obsessão com a mera superficialidade que nós também achamos nos líderes e governantes de nossa era. Apenas um ou dois anos atrás, a retrospectiva de Blake na antiga Tate Gallery despertou nos críticos mordazes comparações com os artistas britânicos habitando atualmente um bairro descolado, destacando que a geração moderna de visionários se torna um tanto pálida quanto comparada com a sua luz. A “loucura” estudada e autoconsciente de Tracey Emin [artista multimídia britânica; Moore continua citando outros artistas contemporâneos a seguir] se torna domesticada ao lado da loucura santificada de Blake. Damien Hirst é chocante numa maneira superficial, mas não chocante ao ponto de ter prestado juramentos de lealdade, ou de ter de lidar com turbas de inquisidores ou julgamentos de sedição. As contribuições dos irmãos Chapman [Jake e Dinos] para o Apocalipse (a exposição, não a situação no Iraque) não são de forma alguma uma revelação. William Blake poderia tirar um apocalipse muito superior da bunda de uma escultura de um dragão vermelho sem nem pensar muito no assunto. O mundo da arte moderna hoje lida com itens de conceito sofisticado, como os campos da publicidade. Ele parece sofrer de certo problema de visão, se é que pode ainda ver alguma coisa, e oferece muito pouco para o caminho de sustentação da cultura em sua volta, que tem fome o suficiente para uma refeição decente, agora mesmo. A reafirmação da magia como arte não poderia prover a inspiração, emprestar a visão e a substância que estão tão claramente em falta no mundo da arte nos dias atuais? Tal infusão de alma não permitiria que a arte vivesse para o seu propósito, a sua missão, de insistir para que a voz humana interior e subjetiva seja efetivamente ouvida na cultura, no governo, e em todos os grandes palcos do mundo? Ou deveríamos nos sentar e esperar que os intelectos super-humanos de Sirius ou a vassoura mágica de Disney ou o próprio Aeon de Horus finalmente cheguem e resolvam toda essa confusão para nós?

essa conjunção apaixonada de duas faculdades humanas certamente constituiria um Casamento Alquímico
Uma união produtiva, uma síntese da arte e da magia propagadas numa cultura, um meio ambiente, uma paisagem mágica sem os muros dos templos e os móveis antigos que todos ignoravam em todo caso. Encenado entre as samambaias ornamentais e o vapor púrpura de uma reestabelecida biosfera ocultista, essa conjunção apaixonada de duas faculdades humanas certamente constituiria um Casamento Alquímico em que, se formos sortudos e as coisas saírem completamente de controle na Recepção Alquímica, poderá precipitar uma Orgia Alquímica, um incidente, uma explosão turbulenta de impulsos criativos, uma copulação astral de ideias resultando em múltiplos nascimentos de quimeras e monstros radiantes. Ferozes centauros conceituais com suas patas de perfume e cabeças de música. Noções sereiantes, oscilantes filmes mudos que são arquitetura da cintura para baixo. Esfinges de gênero e mantícoras de estilo. Mutações desconhecidas e jamais sonhadas, formas de novelas copulando e se adaptando rápido o suficiente para acompanhar o mundo atual, agindo mais como formas de vida, como fauna e flora, proliferando em nossa projetada selva mágica. Esta possível liberação de energia de fusão tornada possível quando esses dois massivos elementos de nossa cultura, a magia e a arte, são levados a uma proximidade dinâmica o suficiente, poderá inundar nossa selva de luz faérica, e até mesmo ajudar a iluminar este pântano de cultura de massa [mainstream] em que estamos todos atolados.

Nada nos impede de nos livramos dos compassos e dos freios, das rodas de treinamento que têm retardado o progresso da magia por tanto tempo que o musgo já cobriu tanto as linhas férreas quando os sinalizadores de desvios. Nada pode nos impedir, caso tenhamos vontade, de redefinir a magia como uma forma de arte, como algo vital e progressivo. Algo que, em sua habilidade de lidar com o nosso mundo interior em vias de utilidade realmente demonstráveis, pode efetivamente ajudar as pessoas comuns, com seus mundos internos sendo usurpados cada vez mais por um exterior tirânico, colonialista, cujo objetivo é extrair até a última gota dos seus sonhos, da sua alegria ou automotivação. Se assim nos decidirmos, poderíamos restaurar a magia a sua potência, um propósito que mal foi tocado nos últimos quatrocentos anos. Caso estivermos preparados para assumir a responsabilidade desse empreendimento então o mundo poderá assistir novamente aos grandiosos e terríveis magos que, fora dos meigos e inofensivos livros para crianças ou dos filmes com orçamentos obscenos e extravagantes, ele tão somente se direcionou a esquecer. Pode ser arguido que neste momento angustiante de nossa situação humana as perspectivas mágicas não são apenas relevantes, mas necessárias e indispensáveis caso desejemos sobreviver com nossas mentes e personalidades intactas. Ao redefinir o termo “magia” poderíamos uma vez mais confrontar as perversidades e trevas mundanas com o nosso método preferido, honrado por sua ancestralidade: com uma palavra.

A humanidade, trancada nesta penitenciária de um mundo material, talvez nunca tenha necessitado mais da chave que a magia representa
Faça com que a palavra “magia” signifique algo novamente, algo digno do nome, algo que, como uma definição de tudo o que é mágico, o deixaria encantado quando você tinha seis anos; ou quando tiver setenta. Caso alcancemos tal conquista, caso consigamos reinventar nossa arte assustadora, selvagem e fabulosa para estes novos tempos assustadores, selvagens e fabulosos pelo qual caminhamos, então poderemos oferecer ao ocultismo um futuro muito mais glorioso, transbordante de aventura, do que jamais pensamos ou desejamos que o seu passado fabuloso pudesse ter sido. A humanidade, trancada nesta penitenciária de um mundo material que temos construído para nós mesmos por séculos, talvez nunca tenha necessitado mais da chave, do bolo com uma serra oculta, do perdão de última hora do governo que a magia representa. Com suas religiões de pedófilos e os seus fundamentalistas dementes, com suas eminências farsantes e seus demagogos mais desavergonhados em atingir suas vis ambições do que jamais foi visto, a sociedade contemporânea, seja no leste ou oeste, parece ter imensa carência de um centro moral e espiritual, parece ter carência até mesmo da mais ínfima pretensão de algo parecido. A ciência que sustenta a sociedade, cada vez mais, em suas mais remotas fronteiras quânticas, descobre que precisa recorrer à terminologia da cabala ou da literatura sufi para afirmar adequadamente o que agora sabe sobre nossas origens cósmicas. Em todas as suas muitas áreas e compartimentos, todos os seus campos dispersos, o mundo parece estar praticamente gritando para que o numinoso venha e o resgate dessa frenética cultura material que nada mais fez do que comê-lo inteiro e cagá-lo através de uma peneira. E onde está a magia, enquanto tudo isso vem acontecendo?

Está tentando forçar nosso namorado a voltar para nós. Está esfregando dinheiro para afastar nossa dívida no cartão de crédito, tentando dar àquele babaca que fugiu com nossa ex-mulher algo terminal. Está garantindo que festas do pijama com o tema Teen Witch corram bem. Está colocando insignificantes pessoas New Age em contato com seus insignificantes anjos New Age, e elas estão todas dizendo, tipo, “De jeito nenhum”, e os anjos estão dizendo, tipo, “Tanto faz”. Está atendendo a todos os nossos repetidos rituais com o entusiasmo que um patrocinador vem assistir à peça The Mouse Trap pela centésima sétima vez. Ela gasta os finais de semana tentando ler nossos péssimos sigilos debaixo da obscurecedora camada de giz, e em retaliação somente nos coloca em contato com entidades capengas, Elohim do serviço comunitário que tagarelam como cientologistas bebuns e nunca fazem um tiquinho de senso. Está no escritório de marcas registradas, registrando selos mágicos. Está lidando com uma agência de encontros que representa nossa única chance de alguma vez conhecer uma estranha buceta gótica. Está conseguindo pra nós uma oferta melhor naquele Renault novo, ajudando a prolongar a miserável vida de nosso cego e incontinente cachorrinho Gandalf, fazendo networking como louco pra garantir os diretos daquele Tarot de Hogwarts do Harry Potter. Ainda está tentando resolver o congestionamento resultante do Aeon de Horus ter furado através do canteiro central e invadido a pista sentido sul, sendo atingido de frente pelo Aeon de Maat, que derramou sua carga de penas pretas no acostamento. Não tem certeza se a ketamina foi realmente uma boa ideia. Está sentada olhando nervosa para mil estantes de livros desde entrevistas com necrófilos sobre estilo de vida e retrospectivas de moda na família Manson. Está aparecendo em celebrações neo-nazistas perto de Dusseldorf. Está se perguntando se deve introduzir uma política de “não pergunte, não conte” com relação ao 11º Grau. Está aconselhando Cherie Blair sobre tachinhas de acupuntura, e Islington inteira sobre Feng Sui. Colocou piercing no pênis numa tentativa de chocar seus pais classe média dos Home Counties, que estão mortos há dez anos, de qualquer maneira. Ela queria ser David Blaine. Ela queria ser Buffy. Ou, bem francamente, qualquer um.

Poderíamos, se desejássemos, ter as coisas de outra maneira
Poderíamos, se desejássemos, ter as coisas de outra maneira. Ao invés de uma magia que está em servidão com um passado de ouro ingenuamente imaginado, ou ainda em romance com um futuro lugubremente fantasiado de parque temático do Deus Ancião, poderíamos tentar ao invés disso uma magia adequada e relevante à sua própria e extraordinária época. Poderíamos, se assim decidíssemos, garantir que o atual ocultismo seja lembrado como o auge de uma fanfarra ao invés de um suspiro decadente; um balbuciar moribundo e envergonhado; nem mesmo uma lamúria. Poderíamos transformar este terreno árido em um abundante paraíso, um trópico onde cada pensamento poderia florescer como arte. Sob o altar está o estúdio, a praia. Poderíamos insistir nisso, fôssemos verdadeiramente quem dizemos que somos. Poderíamos atingir isso não rabiscando sigilos, mas compondo histórias, pinturas, sinfonias. Poderíamos permitir que nossa arte espalhasse suas asas de escaravelho psicodélico em toda sociedade mais uma vez, e talvez ao fazê-lo, deixar que alguma luz ou graça caia sobre aquele dolorido e obscuro organismo. Poderíamos ser refeitos em nosso ninho fresco, permanecer reinventados num verdadeiro alvorecer de nossa Arte dentro de um mundo matinal, com nossa tinta ainda fresca, recém saídos do ovo e com nossos olhos ainda avermelhados no Éden. Recém-nascidos na Criação.

Por Alan Moore. Tradução de Daniel Lopes, revisão de Rafael Arrais.



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