O Cabalion – William Walker Atkinson – PDF

Introdução

Temos o grande prazer de apresentar aos estudantes e investigadores da Doutrina Secreta esta pequena obra baseada nos Preceitos Herméticos do mundo antigo. Existe tão pouco material escrito sobre esse assunto, apesar das inúmeras referências feitas pelos ocultistas aos Preceitos que expomos nas inúmeras obras existentes sobre o ocultismo, que isso nos leva a esperar que o grande número de pesquisadores das Verdades Arcanas saberá acolher devidamente o presente volume.

O propósito desta obra não é a enunciação de uma filosofia ou doutrina especial, mas sim fornecer aos estudantes uma exposição da Verdade que servirá para reconciliar os fragmentos do conhecimento oculto que possam ter adquirido, mas que parecem opor-se uns aos outros, e que só servem para desanimar e desagradar o principiante nesse estudo. O nosso intento não é construir um novo Templo de Conhecimento, mas sim colocar nas mãos do estudante uma Chave Mestra com que possa abrir todas as portas internas que conduzem ao Templo do Mistério em cujos portais ele já entrou.

Nenhum fragmento dos conhecimentos ocultos possuídos pelo mundo foi tão zelosamente guardado, como os fragmentos dos Preceitos Herméticos que chegaram até nós ao longo das dezenas de séculos já transcorridos desde o tempo do seu grande criador, Hermes Trismegisto, o “escriba” dos deuses, que viveu no Antigo Egito quando a atual raça humana estava em sua infância.

Contemporâneo de Abraão e, se for verdadeira a lenda, instrutor deste venerável sábio, Hermes foi e é o Grande Sol Central do Ocultismo, cujos raios têm iluminado todos os ensinamentos que foram publicados desde o seu tempo. Todos os preceitos fundamentais e básicos introduzidos nos ensinamentos esotéricos de cada raça foram formulados por Hermes. Mesmo os mais antigos preceitos da Índia tiveram indubitavelmente suas raízes nos Preceitos Herméticos originais.

Desde a terra do Ganges, muitos ocultistas avançados viajaram para o Egito para se prostrarem aos pés do Mestre. Dele obtiveram a Chave Mestra que explicava e reconciliava os seus diferentes pontos de vista, e assim a Doutrina Secreta foi firmemente estabelecida. De outras terras também vieram os sábios, que consideravam Hermes como o Mestre dos Mestres; e a sua influência foi tão grande que, apesar dos numerosos desvios de caminho de séculos de instrutores dessas diferentes terras, ainda se pode facilmente encontrar certa semelhança e correspondência nas muitas – e quase sempre divergentes – teorias aceitas e combatidas pelos ocultistas de diferentes países atuais. Os estudantes de Religiões Comparadas compreenderão facilmente a influência dos Preceitos Herméticos em qualquer religião digna desse nome, quer seja uma religião conhecida pelo homem, uma religião morta ou que esteja em pleno vigor em nossos dias. Sempre há alguma correspondência entre elas, apesar das aparências contraditórias, e os Preceitos Herméticos atuam como o seu Grande Reconciliador.

A obra de Hermes parece ter sido criada com o fim de plantar a grande Verdade-Semente que se desenvolveu e germinou em tantas formas estranhas, mais depressa do que se teria estabelecido uma escola de filosofia que dominasse o pensamento do mundo. Todavia, as verdades originais ensinadas por ele mantiveram-se intactas em sua pureza original, por um pequeno número de homens, que, recusando grande parte de estudantes e discípulos pouco desenvolvidos, seguiram o costume hermético e reservaram as suas verdades para os poucos que estavam preparados para compreendê-las e dominá-las. Dos lábios aos ouvidos, a verdade tem sido transmitida entre esses poucos. Sempre existiram, em cada geração e em vários países da Terra, alguns Iniciados que conservaram viva a sagrada chama dos Preceitos Herméticos, e sempre recorreram a suas luzes para reacender as luzes mais fracas do mundo profano, quando a luz da verdade começava a escurecer e a apagar-se por conta de sua negligência, e os seus pavios ficavam embaraçados com substâncias estranhas. Sempre existiu um punhado de homens para cuidar do altar da Verdade, em que mantiveram sempre acesa a Lâmpada Perpétua da Sabedoria. Esses homens dedicaram sua vida a esse trabalho de amor que o poeta muito bem descreveu nestas linhas: “Oh! não deixeis apagar a chama! Mantida de século em século nesta escura caverna, em seus templos sagrados! Sustentada por puros ministros do amor! Não deixeis que esta divina chama se extingua!”

Estes homens nunca procuraram a aprovação popular, nem um grande número de prosélitos. São indiferentes a essas coisas, porque sabem quão poucos de cada geração estão preparados para a verdade, ou podem reconhecê-la se ela lhes for apresentada. Reservam a “carne para os homensfeitos”, enquanto outros dão o “leite às crianças”. Reservam suas pérolas de sabedoria para os poucos que conhecem o seu valor e sabem trazê-las nas suas coroas, em vez de “lançá-las aos porcos”, que as pisoteariam na lama, misturando-as a seu repugnante alimento mental. Esses homens, porém, nunca se esqueceram ou perderam de vista os preceitos originais de Hermes, que tratam da transmissão das palavras da verdade aos que estão preparados para recebê-la, a respeito dos quais diz O Caibalion: “Em qualquer lugar que se achem vestígios do Mestre, os ouvidos daqueles que estiverem preparados para receber o seu Ensinamento se abrirão completamente”. E ainda: “Quando os ouvidos do discípulo estiverem preparados para ouvir, aí virão os lábios para enchê-los de sabedoria”. Mas a sua atitude habitual sempre esteve estritamente de acordo com outro aforismo hermético que também se encontra em O Caibalion: “Os lábios da Sabedoria estão fechados, exceto aos ouvidos do Entendimento”.

Os que não podem compreender são os que criticaram essa atitude dos Hermetistas e clamaram que eles não manifestavam o verdadeiro espírito dos seus ensinamentos nas astuciosas reservas e reticências que faziam. Porém, um rápido olhar retrospectivo nas páginas da história mostrará a sabedoria dos Mestres, que não ignoravam a loucura de pretender ensinar ao mundo o que ele não desejava saber, nem estava preparado para isso. Os Hermetistas nunca quiseram ser mártires; pelo contrário, mantinham um retiro silencioso, com um sorriso de piedade nos lábios fechados enquanto os bárbaros se enfureciam contra eles nos seus costumeiros divertimentos de levar à morte e à tortura os entusiastas honestos, porém desencaminhados, que julgavam ser possível obrigar uma raça de bárbaros a admitir a verdade, que só pode ser compreendida pelo eleito já bastante avançado no Caminho.

E o espírito de perseguição ainda não desapareceu da Terra. Há certos Preceitos Herméticos que, se fossem divulgados, atrairiam contra os divulgadores um feroz alarido de desprezo e de ódio por parte da multidão, que tornaria a gritar: “Crucifiquem-nos! Crucifiquem-nos!”

Nesta pequena obra, procuramos apresentar ao leitor uma ideia dos preceitos fundamentais de O Caibalion, empenhados em transmitir-lhes os Princípios operacionais em vez de tratarmos detalhadamente de seus ensinamentos. Os verdadeiros estudantes não terão dificuldade para aplicar esses Princípios; já aqueles movidos por mera curiosidade precisarão se desenvolver porque, nesse caso, os Preceitos Herméticos serão para eles nada além de palavras, palavras, palavras…

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